Sábado, Abril 29, 2006
Este texto diz tudo o que penso e o que sempre pensei a respeito de nosso Presidente. Nunca confiei nele e vejo que eu não estava errada. Na verdade nem gosto de discutir política. Mas já estou cansada de ouvir tanto absurdo. Por muito menos, o Collor foi motivo de Impeachment. E agora? Está tudo muito bem?
A ignorância e o poder -
by Martha Medeiros
Porto Alegre, 01 de março de 2006.
Muita coisa aconteceu enquanto eu estava em férias, mas o que me deixou mais impressionada não foi a vitalidade dos Stones, nem a reação desmedida às charges dos dinamarqueses, nem as risadinhas nervosas na platéia de O Segredo de Brokeback Mountain e tampouco a temperatura do mar (quem diria, a natureza foi quem deu o primeiro passo para "glamurizar" nosso litoral). O que me deixou realmente de queixo caído foram as recentes pesquisas de opinião que dão como certa a reeleição de Lula. Quando começar a propaganda política na tevê é provável que o cenário mude, mas estas pesquisam revelam algo desolador: o povo ignora tudo o que foi fartamente noticiado em 2005, ignora todas as acusações de corrupção, todas as evidências de gatunagem. Não estou dizendo que o povo não se importa. Ele ignora. Não sabe ao certo o que aconteceu. Por quê? Porque não lê.
Nós, assinantes de jornais e revistas, fazemos parte de um Brasil mínimo, de um Brasil ilhado, apartado deste outro Brasil que decide: o Brasil de quem não estudou, de quem ganha uma merreca de salário e que mal sabe assinar o nome. Para este Brasil, um litro de leite a mais no final do mês é o que conta. Dane-se a moral e a ética. Pra quem nunca teve nada, um pouquinho mais do que nada significa fartura e desenvolvimento.
O que me desilude não é o resultado da próxima eleição, mas o resultado da ignorância, que tem cargo vitalício neste país. Não há como o Brasil avançar. O Lula ser reeleito depois de tudo o que se divulgou no ano passado é a maior prova de que estamos condenados ao "rouba mas faz". O presidente viaja em campanha pelos cafundós deste país de iletrados, diz meia-dúzia de
frases feitas no microfone da praça central e pronto: não há mensalão, valerioduto, dirceus, dudas, nada. Tudo ficção científica.
Qualquer político sabe que a única saída para o Brasil é a educação. Sem colocar todas as crianças e adolescentes dentro de uma escola, não haverá dignidade possível nem agora nem jamais. Dinheiro há para isso, mas qual a vantagem? Melhor deixar tudo como está, deixar que os votos sigam sendo frutos da ilusão, e não da consciência.
FHC, Serra, Alckmin, Rigotto, Garotinho, Lula, todos sabem que é preciso deixar a ganância e a politicagem de lado, arregaçar as mangas e acabar com o analfabetismo e as filas indecentes nos postos de saúde. Que é preciso dar um tempo para a própria vaidade e focar no que interessa, moralizar esta pátria sem pai nem mãe. Mas quando o discurso eleitoreiro acaba, segue tudo
igual, o mesmo deslumbre com o poder e a mesma falta de comprometimento.
Se as eleições fossem hoje, Lula seria reeleito mesmo com tudo o que se soube. O problema é que quase ninguém soube. O povo não entendeu o que aconteceu. Se tivesse compreendido alguma coisa, daria uma resposta nas urnas, mas não dará porque não sabe nem mesmo o que está sendo perguntado. Jamais ficará sabendo o que se passa enquanto não ler, e jamais lerá se os
governantes não quiserem que ele leia. Vida longa à ignorância.
Este é o meu estado de espírito recém voltando de férias. Imagina quando eu estiver estressada.
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Beijos e um ótimo fim de semana prolongado para todos!
Clécia -
2:52 PM
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Quarta-feira, Abril 26, 2006
Depois de um longo tempo, eis que estou de volta. Estava pensando no que postar hoje. Então decidi-me a pôr esta crônica (maravilhosa como sempre) da Martha Medeiros. É incrível como esta mulher escreve o que sentimos. Tenho certeza de que todos concordarão, se não no todo mas em parte, com o que ela escreve na crônica abaixo. Aproveito para desejar uma ótima semana a todos meus amigos.
JÁ FUI DE ESCONDER O QUE SENTIA. E sofri com isso. Hoje não escondo nada do que sinto e penso, e às vezes também sofro com isso, mas ao menos não compactuo mais com um tipo de silêncio nocivo: o silêncio que tortura o outro, que confunde, o silêncio a fim de manter o poder num relacionamento.
Assisti ao filme ¿Mentiras sinceras¿ com uma pontinha de decepção ¿ os comentários haviam sido ótimos, porém a contenção inglesa do filme me irritou um pouco ¿ mas, nos momentos finais, uma cena aparentemente simples redimiu minha frustração. Embaixo de um guarda-chuva, numa noite fria e molhada, um homem diz para uma mulher o que ela sempre precisou ouvir. E eu pensei: como é fácil libertar uma pessoa de seus fantasmas e, libertando-a, abrir uma possibilidade de tê-la de volta, mais inteira.
Falar o que se sente é considerado uma fraqueza. Ao sermos absolutamente sinceros, a vulnerabilidade se instala. Perde-se o mistério que nos veste tão bem, ficamos nus. E não é este tipo de nudez que nos atrai.
Se a verdade pode parecer perturbadora para quem fala, é extremamente libertadora para quem ouve. É como se uma mão gigantesca varresse num segundo todas as nossas dúvidas. Finalmente se sabe.
Mas sabe-se o quê? O que todos nós, no fundo, queremos saber: se somos amados.
Tão banal, não?
E no entanto esta banalidade é fomentadora das maiores carências, de traumas que nos aleijam, nos paralisam e nos afastam das pessoas que nos são mais caras. Por que a dificuldade de dizer para alguém o quanto ele é ¿ ou foi ¿ importante? Dizer não como recurso de sedução, mas como um ato de generosidade, dizer sem esperar nada em troca. Dizer, simplesmente.
A maioria das relações ¿ entre amantes, entre pais e filhos, e mesmo entre amigos ¿ ampara-se em mentiras parciais e verdades pela metade. Podem-se passar anos ao lado de alguém falando coisas inteligentíssimas, citando poemas, esbanjando presença de espírito, sem alcançar a delicadeza de uma declaração genuína e libertadora: dar ao outro uma certeza e, com a certeza, a liberdade. Parece que só conseguiremos manter as pessoas ao nosso lado se elas não souberem tudo. Ou, ao menos, se não souberem o essencial. E assim, através da manipulação, a relação passa a ficar doentia, inquieta, frágil. Em vez de uma vida a dois, passa-se a ter uma sobrevida a dois.
Deixar o outro inseguro é uma maneira de prendê-lo a nós ¿ e este ¿a nós¿ inspira um providencial duplo sentido. Mesmo que ele tente se libertar, estará amarrado aos pontos de interrogação que colecionou. Somos sádicos e avaros ao economizar nossos ¿eu te perdôo¿, ¿eu te compreendo¿, ¿eu te aceito como és¿ e o nosso mais profundo ¿eu te amo¿ ¿ não o ¿eu te amo¿ dito às pressas no final de uma ligação telefônica, por força do hábito, e sim o ¿eu te amo¿ que significa: ¿seja feliz da maneira que você escolher, meu sentimento permanecerá o mesmo¿.
Libertar uma pessoa pode levar menos de um minuto. Oprimi-la é trabalho para uma vida. Mais que as mentiras, o silêncio é que é a verdadeira arma letal das relações humanas.
Martha Medeiros
Clécia -
3:40 PM
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